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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Resenha: Tópicos

ARISTÓTELES. Tópicos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Coleção Os Pensadores.


Introdução

            O trabalho acadêmico em questão visa analisar a obra “Tópicos” do filósofo investigador, experimentador, observador e sistematizador Aristóteles. O autor nasceu em Estágira, uma colônia jônica localizada no reino da Macedônia, no norte da Grécia. Cursou a Academia de Platão, em Atenas. Vindo a substituí-lo. Foi o p preceptor de Alexandre, filho do rei Macedônio Felipe II, fundando sua escola de fundamentação empirista opondo-se ao seu mentor racionalista (MARCONDES, 2001).

            A obra a ser tratada é parte de um dos seis trabalhos de Aristóteles coletivamente conhecidos como Órganon. Um tratado sobre a arte dialética. A criação de um método para ensinar a argumentar acerca das questões propostas, partindo de premissas prováveis, e a evitar quando um argumento é defendido que este seja contrariado. Uma obra que se difere do que é desenvolvido em sua época e que se torna elementar para a defesa de argumentos e teses mesmo nos nossos dias.

Principais teses desenvolvidas na obra

            O que se pode destacar com relação a obra é que sua premissa é conceitual. Os conceitos desenvolvidos apontam para a formação de um modo aristotélico de se desenvolver e/ou analisar um argumento de forma eficiente. Principia explicando a formação do raciocínio. Afirma que é uma "demonstração", que é "dialético", que é"contencioso" ou "erístico; que os falsos raciocínios e afirma mais uma vez seu caratês conceitual apontando que uma de suas intenções com a grafia da obra em questão e a de “dar a definição exata de cada uma delas”. Outro intento é o de pontuar o adestramento do intelecto, as disputas casuais e as ciências filosóficas como fim desse pensamento filosófico.
Em seu fazer filosófico afirma que os argumentos partem de "proposições", enquanto os temas sobre os quais versam os raciocínios são "problemas". Delimita “definição” como uma frase que significa a essência de uma coisa. "propriedade" como um predicado que não indica a essência de uma coisa, e todavia pertence exclusivamente a ela e dela se predica de maneira conversível; e "gênero" como aquilo que se predica, na categoria de essência, de várias coisas que apresentam diferenças especificas. Define ainda "acidente" como alguma coisa que, não sendo nada do que precede e como algo que pode pertencer ou não pertencer a alguma coisa.
            Para continuar em sua definição de identidade o autor aponta duas maneira de se confirmar os elementos em questão: a indução e o raciocínio que para o autor, são espécies de argumentos dialéticos . Passa então a delimitar o que são os predicados, ou as qualidades a serem analisadas e elas, segundo Aristóteles são: Essência, Quantidade, Qualidade, Relação, Lugar, Tempo, Posição, Estado, Ação, Paixão. Seu próximo passo é colocar em paralelo as definições de "proposição dialética" e um "problema dialético", sua necessidade parte da compreensão de que nem toda proposição e nem todo problema podem ser apresentados como dialéticos.
            A descrição de seu método de fazer filosófico se desenvolve a partir dos meios pelos quais os raciocínios se dão, e são eles: O prover-nos de proposições; a capacidade de discernir em quantos sentidos se emprega uma determinada expressão; descobrir as diferenças das coisas; e a investigação da semelhança. Para ele existem três grupos de proposições e problemas: éticas, as de filosofia natural e as lógicas. Sua averiguação se posta sobre o fato deu que esses problemas são universais ou particulares. Afirma ainda que os sujeitos que devem ter um, e apenas um, dentre dois predicados e que não pode haver contradição. Uma coisa é o que ela é e não se contradiz.

Apreciação crítica da obra

O pensamento Aristotélico se desenvolve de forma sistemática e aborda temas, até seu tempo, nunca abordados. É precursor da organização do discurso e até hoje se mantém relevante no que se refere a defesa de uma proposição. Segundo Sproul (2002) sua relevância histórica se dá por descrever a lógica e descrever seus fundamentos. Lógica essa que passa a ser ferramenta fundamental para outras ciências. Srpoul (2002) afirma ainda que, com relação ao desenvolvimento do pensamento de Aristóteles em sua obra, que o que importa para a conclusão de um argumento é, em última instância, se ele é válido ou não. Para isso desenvolve leis, como visto a cima, tais como a da não contradição, que apontam para uma realidade única, base da lógica formal que guia as ciências.
Em sua controvérsia com a escola anterior, ele se como precursor de uma das grandes cismas da história da filosofia, sendo o opositor da escola platônica e a grande referencia da escola empirista, como nos afirma Marcondes (2001):
A influência de Aristóteles na formação do pensamento ocidental — não apenas filosófico, mas também científico, político, literário — foi imensa. O pensamento aristotélico e o platônico constituíram de fato as duas grandes vias de desenvolvimento da filosofia clássica, principalmente ao longo do período medieval, quando São Tomás de Aquino se inspira em Aristóteles para desenvolver seu sistema tomista, assim como Santo Agostinho havia se inspirado em Platão ao elaborar um platonismo cristão.

Apesar de não se comparar ao Deus Judaico-Cristão, o deus de Aristóteles abre a compreensão para a idéia de um motor não movido, uma força impessoal que é a forma última da matéria e que move o mundo pela a tração (SPROUL, 2002).
Por ser extremamente relevante para o desenvolvimento lógico do raciocínio para a pregação da palavra, requisito que se espera de um ministro (ANGLADA, 2005), a leitura e compreensão da obra Tópicos de Aristóteles se faz necessária para a introdução ao tema.





Referencias Bibliográficas:
·         ANGLADA, Paulo. Introdução a Pregação Reformada. Ananindeua: Knox, 2005

·         DUARTE, Glaucius Décio. Reflexões sobre o ORGANON (V - Tópicos), de Aristóteles. Porto Alegre: PGIE/UFRGS, 2003.
Disponível em : <https://www.academia.edu/8490617/Reflex%C3%B5es_sobre_o_ORGANON_V_-_T%C3%B3picos_de_Arist%C3%B3teles> Acesso em: 31/08/16.

·         MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia dos pré-socráticos a Wittgenstein Rio de Janeiro: ZAHAR, 2001.

·         SPROUL, C. R. Filosofia para iniciantes. São Paulo: Vida Nova, 2002.


·         Site Pensador. Biografia de Aristóteles. Disponível em: http://pensador.uol.com.br/autor/aristoteles/biografia/ Acesso em: 31/08/16.

Resenha: A Lógica da Pesquisa Científica.

POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 2008.

Introdução:
Este trabalho digna-se a analisar a obra “A Lógica da Pesquisa Científica” do professor Karl Popper, com vistas a aprovação na matéria “Lógica” do curso de Teologia do seminário João Manuel da Conceição.
Considerado sucessor de Kant e Russell, Popper é mundialmente conhecido por sua obra filosófica. Com obras traduzidas em várias línguas, pode-se destacar as que foram traduzidas para o português como “A sociedade democrática e seus inimigos”. Anti marxista é considerado Socialista por sua obra. Destaca-se, também, na pesquisa nas áreas de lógica, metodologia das ciências sociais e probabilidades, arvorando-se também em pesquisas metafísicas da teoria da evolução.
A obra é dividida em duas partes: Introdução a lógica científica; Alguns componentes estruturais de uma teoria da experiência. A ideia geral do autor é propor uma imersão inicial em conceitos e prática do fazer científico apresentando bases de verificação e análise para pesquisa.
Principais teses desenvolvidas na obra:
            O autor inicia sua obra apontando problemas para as ciências empíricas em oposição declarada ao fazer científico de sua época o método indutivo. O problema da indução é foco de sua primeira abordagem. Pontua que o método da indução é supérfluo e deve conduzir a incoerências lógicas e possui problemas são intransponíveis.
Quanto a eliminação do psicologismo e pontua que  existe diferença entre Psicologia Empírica e o foco do seu estudo, a lógica, para fazer uso dos termos na sua explanação da abordagem dedutiva no fazer científico sem incorrer em confusão de termos. Para ele a partir de uma ideia nova, formulada conjecturalmente e ainda não justificada de algum modo – Antecipação, hipótese, sistema teórico ou algo análogo – podem-se tirar conclusões por meio de dedução lógica. E demonstra os quatro tipos de atitudes científicas para se chegar ao saber: Comparação lógica das conclusões umas às outras, a investigação de forma lógica da teoria, a comparação com outras teorias, e a comprovação da teoria por meio das aplicações empíricas. Esse termos são eficiente para verificar até que ponto as novas conseqüências da teoria respondem às exigências da prática. Mas quanto a esse fazer científica analisa também o problema da demarcação, ou seja, o de se estabelecer critério que nos habilite a distinguir entre as ciências empíricas bem como os sistemas metafísicos.
Demonstra que esse processo falha ao traçar uma linha divisória entre os dois sistemas de conhecimento o teórico e o da experiência propondo um acordo ou convenção. Para a Popper uma hipótese deve ser testada, para ver se ela é verdade e que quando houver qualquer coisa que a invalida, a hipótese não é mais válida. Por isso a teoria da falseabilidade é abordada por ele como um divisor de águas na construção do saber.
Defensor da ideia de que o conhecimento não é possível em sua completude toda a sua obra se dispõe a provar a inviabilidade do método indutivo e sua visão de que apesar de não servirem para se validar teorias elas serviriam para corroborá-las. A medida em que as teorias passam pelos testes de validação, elas adquirem maior credibilidade como descreve: “Proponho que se adotem regras que assegurem a possibilidade de submeter a prova os enunciados científicos, o que equivale a dizer a possibilidade de aferir sua falseabilidade” (pág. 51). Schmidt e Santos (2007) afirmam que Popper diz “que o empirismo confundia o problema da validade de uma teoria com a sua origem, sustenta o ponto de vista de que esta última não é logicamente sistematizável, além de ser irrelevante para determinar a validade ou veracidade da teoria”. Para ele o positivismo apenas de inclinava sobre “Pseudoproblemas” ou charadas e que as convenções da pesquisa empírica são diferentes da lógica pura.



Apreciação crítica da obra:
A obra aponta grande contribuição no fazer científico no que se refere a sua forma e foco. O foco da produção de conhecimento nos trabalhos científicos se posiciona sobre métodos como pontua Oliveira (2002, p.57) afirmando que “o método é, portanto, uma forma de pensar para se chegar à natureza de um determinado problema, quer que seja para estudá-lo, quer seja para explicá-lo”, Já Gil (1999) descreve a metodologia como “a arte de dirigir o espírito na investigação da verdade, é o estudo dos métodos”. Nessa perspectiva, Teixeira (2005, p.79) afirma que,
... A metodologia da ciência nos fornece uma explicação sobre os paradigmas da ciência e suas superações, nos orienta sobre as possibilidades de caminhos que podemos seguir para a construção do conhecimento e nos dá pistas para compreendermos o que vem acontecendo com a pesquisa na atualidade.
            A opção pelo método de abordagem deve emergir do objeto estudado e o objetivo do estudo, podendo valer-se tanto do método indutivo, combatido por Popper, como do método dedutivo proposto por ele. Suas críticas são válidas a época por afirmar que o “progresso científico demonstrou consistir, não em acumulação de observações, mas em superação de teorias menos satisfatórias e sua substituição por teorias melhores, ou seja, por teorias de maior conteúdo” (SCHMIDT e SANTOS, 2007). Ainda segundo Schmidt e Santos (2007) o autor “rejeita enfaticamente é o determinismo e a concepção segundo a qual tudo o que acontece na história é fruto dos caprichos, vontades ou interesses de algum grupo, camada ou classe social, econômica ou politicamente dominante”. Isso dever considerada no combate ao maniqueísmo marxista na sua posição materialista e histórica tendenciosa a eliminar qualquer outro elemento que não as classes dominante na construção do saber.
            Quanto à condição de se inferir sobra à verdade é importante pontuar que o conhecimento é possível a partir de que se considere a base do conhecimento em Deus. Deus é quem diz o que as coisas são e Ele se dispõe a revelar ao homem o que Ele quer que conheçamos a respeito de tudo. Ele também é o fim último de tudo, bem como origem de tudo, como afirma Paulo “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11:16)

Referencias Bibliográficas:

A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5. Ed – São Paulo: Atlas, 1999.
OLIVEIRA, S. L. Tratado de Metodologia Científica: projetos de pesquisas, TGI, TCC, monografias, dissertações e teses. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 2002.
POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 2008.
SCHMIDT, P.; SANTOS, J. L. O pensamento epistemológico de Karl Popper. Porto Alegre: ConTexto v. 7, n. 11, 1º semestre 2007.
Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/index.php/ConTexto/article/view/11236/6639>. Acesso em: 21/09/16.

TEIXEIRA, Elizabeth. As três metodologias: Acadêmica, da ciência e da pesquisa. Rio de janeiro: Vozes, 2005.

Resenha: O Conceito Calvinista de Cultura

VAN TIL, Henry R. O Conceito Calvinista de Cultura, São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

Introdução

Este trabalho se presta a analisar a obra “O Conceito Calvinista de Cultura” do Pastor e professor Henry R. Van Til.  O autor foi professor no Calvin College education e no Calvin and Westminster Seminaries, contribuiu com periódicos como "Torch and Trumpet" e "Church and State in East Germany". Serviu como president do Calvinistic Culture Association of America e como vice president do Evangelical Ministerial Union of Grand Rapids, Michigan. (Memorial: HENRY R. VAN TIL, 1906-1961)
A obra trabalha em prol da descoberta de uma cultura verdadeiramente cristocêntrica e cristodirecionada, apontando para as escrituras como única base pela qual o homem pode desenvolver sua cultura e sociedade abaladas pelo pecado. O livro divide-se em três partes, definindo a questão, onde apresenta conceitos que serão utilizados na obra; Orientação histórica, com uma breve análise dos teólogos, Agostinho (354-430), Calvino (1509-1564), e Kuyper (1837-1920) e Schilder (1890-1952) e suas contribuições ao conceito de cultura; e Considerações básicas a respeito de uma definição, onde aponta sua visão a respeito do tema. Uma referência para o tema que aponta para a forma bíblica de se enxergar o mundo.
Teses Principais

            Na primeira parte de sua obra, Van Til apresenta os conceitos que irão servir como base para sua discussão. Logo em seu prefácio, conceitua cultura como atividade do homem portador da imagem de Deus, pela qual ele executa a ordem dada na criação ,de cultivar a terra, dominá-la e sujeitá-la. Afirma que parte desse conceito também se dá no resultado de tal atividade. Importante pontuar que o autor afirma que a cultura é determinada pela religião. E sua introdução delimita a atuação da obra como restrito a consideração da crise atual, A luz da importância da vocação do cristão de amar a Deus com todo seu coração, alma mente e força. Isso se posta na verdade de que Cristo salvou o mundo incluindo a cultura humana. Apresenta como tese o fato deu que:
... se confessarmos que conhecemos a Deus na face de Jesus Cisto, se pela graça, dizemos “em tua luz vimos a luz”, então não podemos ter comunhão verdadeira com o ímpio, apostatando da cultura de nosso tempo, embora tenhamos de nos associar aos homens do mundo. De fato estamos no mundo, mas não somos do mundo. (Pag. 25)
            Conceituando cultura Van Til aponta que o conhecimento técnico filosófico aponta para o criador, pois pressupõe que a cultura é a realização do molde intencional da natureza na execução da vontade criativa de Deus. Que o home no estado de retidão possuía impulso (vontade), o chamado (dever), o privilégio (possibilidade) e também poder (habilidade) para executar o mandado criativo de Deus, mas que pelo pecado, ele perdeu essa motivação e, em conseqüência disso, o objetivo de sua cultura é pervertido.
            Para o autor homem continua responsável por essa comissão de cultivar, mas se encontra alienado dela. Os relacionamentos afetados promovem desordem e desequilíbrio nas estruturas básicas: casais, família e nas relações hierárquicas do trabalho. Tudo se dá por conseqüência do mal promovido pelo pecado. O que se contrapõe a formação cultural corrompida dos homens é a atuação de Deus na história que em Cristo, reconcilia todas as coisas com Ele mesmo (Cl 1.14), inclusive a cultura. Cristo é o Grande renovador da vida; ele restaura a religião verdadeira. Para T. S. Eliot a cultura é a “religião vivida”. O autor conclui o seu pensamento afirmando que a religião e a cultura são inseparáveis, pois toda cultura é animada pela religião. O homem é restaurado por Deus como criatura cultural para servir ao seu Criador. Ao definir calvinismo o autor aponta que a filosofia calvinista contemporânea reconhece a revelação de Deus como autoridade principal e suprema em vez da mente autônoma do homem pontuando que uma metafísica bíblica de conhecimento é uma ética bíblica.
            Em sua segunda parte o autor demonstra seu respeito por quatro grandes pensadores da cultura no veio calvinista: Agostinho, o próprio Calvino, Kuyper e Schilder. Traça uma breve análise de cada um extraindo os conceitos e aplicações da prática teológica de cada um, no que se refere à cultura.
            Os conceitos apontados por Agostinho e destacados por Van Til são: a crença de que as realizações da luta cultural do homem devem ser permeadas e transformadas pelos princípios cristãos de modo que desenvolvamos uma cultura de verdadeiro amor e glorificação a Deus, em vês de uma cultura do mundo, já que ela é corrupta e desafia a Deus. Agostinho tem como obra principal, a cidade de Deus onde apresenta dois reinos como entidades metafísicas que são forças espirituais em oposição, Jerusalém e a Babilônia. O ponto de maior destaque na exposição do pensamento agostiniano é o fato de que o homem e seu mundo derivam do criador e dependem do mesmo. O significado dos dois é também definido por Deus. A conclusão do Autor sobre esse pensador é de que ele é o filósofo das antíteses culturais e da regeneração, pois acreditava na restauração do homem integral em Cristo, a quem o mundo inteiro foi dado sob Cristo.
            Sobre João Calvino, o autor destaca sua contribuição original à teologia e a cultura. Sobre sua visão da política vale destacar que para ele a igreja e o Estado são duas entidades interdependentes e que cada uma recebeu sua autoridade do Deus soberano. Defende que foi Calvino e não o iluminismo que libertou toda a esfera cultural da tutela da igreja e que com isso tornou o homem responsável e devedor de contas somente a Deus e a sua consciência. Uma liberdade de essência espiritual. A vocação para Calvino é determinada por Deus e toma o conceito de cultura mais amplo para afirmar isso, desde a agricultura e comércio até as coisas de beleza e luxos da vida. Para Calvino, todo homem tem um chamado divino de realizar o mandado cultural, pois todas as coisas são nossas, mas nós somos de Cristo. Essa preocupação cultural deve ser pautada sob a tutela da Palavra de Deus.
            Kuyper é descrito como um gênio versátil do Calvinismo holandês. Van Til destaca como frase principal desse pensador: “Não há nem um centímetro em toda a área de existência humana da qual Cristo, o soberano de tudo, não proclame: ‘Isso é meu’”. Essa frase pode ser também apontada com a sua tese principal. Kuyper fala que a graça comum é o fundamento da cultura, já que o grande plano de Deus para a criação é alcançado por meio da graça. Sua tese é fundamentada na suposição de que a criação inteira não será destruída, mas será glorificada. As nomenclaturas “normalistas” e “anormalistas” é usada para denominar os dois tipos de pessoas que existem: os que forma regenerados em sua natureza ética-espiritual  por Deus e os que não. Sobre ciência e religião, vale ressaltar que o que é verdade na primeira também o é na segunda, já que por meio de Cristo todas as coisas foram feitas e, por meio de Cristo, todas as coisas esperam.
            O último teólogo abordado na análise histórica do pensamento calvinista sobre cultura é Schilder, sucessor de Kuyper no que se refere a importância da obra, mas divergente em vários pontos e opositor em alguns. Substitui, por exemplo, a doutrina da graça comum pela doutrina do mandato comum. Sua tese principal pode ser exemplificada quando aponta a história como estrutura para a obra redentora de Deus em Cristo. Deus condena o pecado, mas restaura a história e a natureza em Cristo para o cumprimento dos seus propósitos antigos. Cristo, além de substituto no seu sacrifício vicário também substitui o homem no cumprimento do seu mandado cultural. Para Schilder tanto o mandado cultural como o impulso cultural ainda são comuns hoje a todos os seres humanos, mas nem todos fazem uso das duas formas de se relacionar com a cultura. A formulação de Schilder coloca Cristo como chave e pista para a cultura. Em Cristo a justiça punitiva ou ira de Deus contra o pecado teve de ser aplicada, bem como a obediência requerida por Deus devia ser prestada. Logo Cristo restaura a cultura produzindo a verdade, o homem integral. Uma dualidade se institui: De um lado o ímpio cuja cultura nunca alcança sua consumação, do outro a construção cultural criativa e positiva é realizada apenas quando a vontade de Deus é obedecida. Os extremos passam a ser evitados na compreensão da cultura, segundo Schilder “não se pode ficar intoxicado com o otimismo cultural nem idiotizado com o ascetismo cultural” já que o mundo não é mais o jardim de Deus, mas é um lugar de trabalho.
            Na terceira e última parte Van Til apresenta suas conclusões quanto aos deveres culturais dos crentes nas bases de seu relacionamento com o Deus da aliança em Jesus Cristo. Sua visão sobre a autoridade da Bíblia pode ser resumida no fato de que Deus, que criou todas as coisas, diz o que as coisas são através das Escrituras. Ele afirma que a palavra é clara e suficiente em todas as questões de fé e conduta. É ponto de referencia final para o pensamento, desejo, ação, amor, e ódio do homem por sua cultura, bem como por seu culto. Por isso o temor ao senhor é o princípio da sabedoria. Citando Dooyeweerd “Sentido é a existência de tudo o que foi criado e da natureza mesma da condição própria. Ele tem uma raiz religiosa e uma origem divina”. Por isso a bíblia é o livro fonte para as questões culturais, para além do caminho da salvação. Para Van Til é clara a imposição de que Deus é quem tem destinado o significado de cada coisas criada, já que o empreendimento cultural inteiro do homem deve receber seu significado de Deus, que deve revelar esse significado ao homem. A tarefa cultural do homem é, Portanto, separar as verdades das ciências, para que o homem como profeta possa pensar os pensamentos de Deus.
            Van Til aponta que para os calvinistas a fé tem primazia como motivação de sua cultura. Afirma que aqueles que participam, pela fé, com Cristo, são restaurados aos seus ofícios de profeta, sacerdote e rei, ficando livres do domínio do mal e prontos para realizar o mandado de Deus. Essa renovação da cultura começa aqui, mas será consumada no novo céu e na nova terra, onde um habitat apropriado para o redimido está sendo preparado. Outro tema abordado pelo autor é o da antítese: A hostilidade que Deus estabeleceu entre a semente da mulher e a semente da serpente. Demonstra que Satanás tenta amenizar essa antítese, camuflar sua intenção real, tentando criar a idéia de uma zona neutra no mundo. Para Van Til a posição cristã deve postar-se em um lado e lutar por ele, já que essa antítese é absoluta. A posição do calvinista deve postar-se, também sobre o princípio de que todas as obras devem ser realizadas para o senhor e que Ele é o senhor da história, isso implica que Ele dá significado a todo o passado por que foi constituído Senhor dessa história. Em seu trabalho de mediador, Cristo é reconciliador do mundo, o primeiro princípio (arché) e o Logos da História, a Chave da Cultura. Ele é quem restaura os homens a verdade e, por conseqüência, espera que os cristãos sejam testemunhas da verdade e que por ela lutem.
Quanto ao chamado, ou vocação, do cristão o pecado é que produziu divisão entre cultura e religião por causa do homem buscar em prioridade, o seu eu. O autor chegou a afirmar que o homem fez da cultura a sua religião e separou o seu trabalho do serviço do Senhor. Para ele o homem integral, sem pecado e integrado no serviço de Deus, veio ao mundo para restaurar a humanidade perdida à sua vocação perdida. Por último, em sua obra, Van Til trás importantes observações sobra a graça comum. Primeiro que apesar de ser válida ela precisa ser distanciada dos extremos de Kuyper e Schilder. O primeiro aponta que a graça comum é o fundamento da cultura e da história e o segundo que nega a relevância da graça comum para o empreendimento cultural. A graça comum precisa ser enxergada como uma atitude ética por parte de Deus para a humanidade, pela qual o homem é impedido de expressar totalmente sua inimizade em relação ao Criador ou a seus semelhantes, e pela qual ele é capacitado a desempenhar certas ações morais. Citando Calvino Van Til pontua que certa graça de Deus aos pecadores não-regenerados foi depositada na história. Por tanto, eles são capazes de aquilo que é, de modo relativo, bom e descobrem muita verdade com relação às coisas inferiores. Sua afirmação final aponta para um Cristo transformador da cultura quando Ele transforma a vida dos santos por, já que todo aquele que está em Cristo Jesus é nova criatura. Desafia, ainda: A religião e um povo se manifesta em sua cultura e os cristãos não pode ficar satisfeitos com nada que uma organização cristã da sociedade.

Apreciação crítica da obra

A obra se posta como imprescindível para o estudo da cultura aos que busca uma visão bíblica da mesma.  Uma leitura acessível e bem organizada sob aspectos didáticos. A abordagem histórica abrange os ícones do pensamento calvinista sobre o assunto e analisa de forma satisfatória.
Capítulos sobre Kuyper e Schilder foram formatados de forma diferente dos outros dois capítulos de análise dos teólogos anteriores, o que pode dificultar a compreensão e esteticamente trabalham contra a obra. O que poderia ser de grande valor didático no que se refere às diferenças e semelhanças no ponto de vista dos teólogos seria a utilização de tabelas comparativas, tanto no final da explanação da análise dos pensadores como no final da obra com o ponto de vista do autor sobre assuntos específicos. Pode-se sugerir uma abordagem mais profunda do pensamento dos pensadores em questão como uma verificação histórica detalhada da questão da visão da cultura sob a ótica Calvinista.
Van Til demonstra, em sua explanação do tema, consonância com outros autores reformados. Quanto a importância das Escrituras na determinação do que é cultura, Sproul (2002) demonstra o pensamento de Agostinho quando afirma que a revelação é a condição necessária para todo o conhecimento. O filósofo adotou o lema: “Creio a fim de entender” e buscou uma verdade que não fosse apenas provável, mas eterna imutável e independente. A importância do conhecimento de Deus é afirmada também por Pink (2001) quando destaca que a “mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais vigorosa filosofia, com poder de empolgar a atenção de um filho de Deus, é o nome, a natureza, a pessoa, os feitos e a existência do grande Deus, a quem Chama de Pai”. Já David Naugle (2014) chama a atenção para o fato de que as “escrituras, então, sugerem que as realidades divinas de quem Deus é e do que Ele tem escolhido constituem a base da ética revelada na Escritura e na natureza”.
            Naugle (2014) trás importante contribuição no que diz respeito ao mandado cultural entendendo-a como a tarefa de ter domínio sobre a terra. O que nos leva ao problema do pecado já que estruturalmente a criação era muito boa. Todavia, o pecado, como um parasita, afetou tudo e todas as áreas da vida seguiram na direção errada. O que nos leva ao conceito de graça comum.  André Biéler (2012) contribui para a discussão a respeito das afirmações quando à graça comum apontando que os dons naturais, resta-nos alguma porção de inteligência e de discernimento com a vontade. Afirma que a morte outra coisa não é que estar alienado de Deus, mas que Cristo é o começo da segunda e nova criação já que na pessoa de Jesus Cristo de Nazaré, a criatura humana é totalmente restaurada; nela reencontrou suas verdadeiras dimensões, sua verdadeira natureza, sua perfeição original. O novo adão inaugura uma nova humanidade. Para Biéler (2012), ainda, a obra de Cristo restaura todo o universo, toda a criação é chamada para participar da grande obra de restauração começada pelo filho, bem como o homem recupera, ainda que parcialmente, sua soberania sobre a natureza. Naugle completa esse pensamento afirmando que o Cristianismo, em outras palavras, significa a restauração do mundo devastado pelo pecado. (NAUGLE, 2014, posição 411)
            A obra apresenta real valor no que se refere ao tema. Atente a proposta do autor e aos anseios de quem precisa aprender a olhar para o mundo com os olhos da Bíblia, toda a igreja deveria estar diante dos conceitos expostos nessa obra já que como pontua Naugle (2014) Deus é a verdadeira sabedoria, portanto o verdadeiro filósofo ama a Deus. Meditar nas palavras de Deus é aplicar seus conceitos como estilo de vida, moldar nossa cultura com a visão bíblica se faz urgente e condição irrevogável para cumprir a vontade de Deus.



Referencias Bibliográficas

·         Memorial: HENRY R. VAN TIL, 1906-1961
Disponível em: <http://www.etsjets.org/files/JETS-PDFs/5/5-1/BETS_5-1_9-10_Memorials.pdf> Acesso em:17/10/16.

·         BIÉLER, André. O pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

·         BURNS, Bárbara. AZEVEDO, Décio de. CARMINATI, Paulo Barbero F. de. Costumes e Culturas Sociedade religiosa. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990.
·         NAUGLE, David K. Filosofia um guia para estudantes. Brasília: Editora Monergismo, 2014. Versão Kindle.

·         MOK, Mansoo. Antropologia Cultural numa perspectiva missionária. Contagem: AME Menor, 2005
·         PINK A. W. Os atributos de Deus. São Paulo: Publicações Evangélicas selecionadas, 2001.

·         SPROUL, C. R. Filosofia para iniciantes São Paulo: Vida Nova, 2002.

Resenha: Cultura - um conceito antropológico.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

Introdução

            O trabalho acadêmico em questão digna-se a analisar a obra “Cultura: um conceito antropológico” do autor Roque de Barros Laraia, atropólogo e professor emérito da Universidade de Brasília. Suas pesquisas de campo entre os índios Suruí, Akuáwa o Xerente da bacia do Tocantins, Kamayurá do Alto Xingu e Kaapor dos rios Gurupi o Turiaçu lhe deram a oportunidade de ocupar o cargo de presidente da FUNAI interinamente durante um mês. Recebeu como prêmios o “Diploma de Honra conferido pela Fundação de Apoio a Pesquisa do Distrito Federal, pela contribuição ao desenvolvimento científico e tecnológico do Distrito Federal, Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal. (ZAHAR)
            A obra em questão se preocupa em introduzir o leitor ao conceito antropológico de cultura. Visando a compreensão do paradoxo da enorme diversidade cultural da espécie humana. Podemos dividir a Obra em duas partes: O desenvolvimento do conceito de cultura a partir das manifestações iluministas até os autores modernos; e como a cultura influencia o comportamento social e diversifica enormemente a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica. A obra atende ao interesses da introdução do assunto nos cursos de graduação em antropologia e demais ciências sociais.

Teses Principais

Na primeira parte do livro “Da natureza da cultura ou da natureza à cultura” trava-se um debate a respeito à conciliação da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana. Determinando um pressuposto para a obra aponta-se que as diferenças de comportamento entre os homens não podem ser explicadas através das diversidades somatológicas ou mesológicas e que nem o Tanto o determinismo geográfico como o determinismo biológico podem explicar.
            O primeiro capítulo demonstra que o determinismo biológico não é suficiente para determinar as diferenças culturais. Mesma afirmação feita no que se diz respeito ao determinismo geográfico. O autor esmera-se em promover exemplos que explicitem a idéia de que as condições geográficas parecidas não proporcionam mesma forma de produzir cultura.
            Antes de conceituar cultura historicamente o autor se preocupa em demonstrar os Antecedentes históricos do conceito de cultura. Aponta que o termo “cultura” se desenvolveu de duas idéias de estruturas diferentes. Kultur e Civilization “ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture”. Aponta que inicialmente o conceito histórico se desenvolveu como: "tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.

Locke refutou fortemente as idéias correntes na época, tanto Jacques Turgot quanto Jean Jacques Rousseau se arvoraram na suas criticas e adendos a essa forma de enxergar cultura, mas Kroeber complementou promovendo o afastamento entre o cultural e o natural. A afirmação final de Laraia nessa capítulo é a de que o homem é o único ser possuidor de cultura.
Quanto ao conceito, ele evolui historicamente sendo objeto de estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural que possui causas e regularidades. A formulação de leis é, portanto, possível. O autor afirma que Tylor é profundamente impactado pela Origem das espécies, de Charles Darwin e que o etnocentrismo e ciência andavam em paralelo.
Franz Boas atribuiu para a antropologia a execução de duas tarefas: primeiro a reconstrução da história de povos ou regiões particulares; segundo a comparação da vida social de diferentes povos, cujo desenvolvimento segue as mesmas leis. Para ele cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou por isso a explicação evolucionista da cultura só tem sentido quando ocorre em termos de uma abordagem multilinear. Sua preocupação era evitar a confusão entre o orgânico e o cultural, que o homem criou o seu próprio processo evolutivo superando o orgânico e libertando-se da natureza. Entende que o homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. É fruto do que é historicamente acumulado pela humanidade.
O conceito de cultura pode ser relacionada como: Mais do que a herança genética; Meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. O autor afirma ainda que ao adquirir cultura o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. Tudo que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura. Finaliza esse assunto afirmando que “toda a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação”.
A idéia sobre a origem da cultura é apontada como uma conseqüência natural da vida arborícola e do bipedismo que proporcionou um cérebro mais volumoso e complexo e por conseqüência o aparecimento da cultura. Já as teorias modernas sobre a cultura são descriminadas através do pensamento de Roger Keesing. Para ele culturas são sistemas que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Seu pensamento darwinista o leva a conclusão de que mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural. Ele aponta três diferentes abordagens desses sistemas, a saber: O sistema cognitivo, os sistemas estruturais e os sistemas simbólicos.
Já para Clifford Geertz e David Schneider a abordagem é diferente. Um parte de uma busca por uma definição de homem baseada na definição de cultura. Para isto, refuta a idéia de uma forma ideal de homem, decorrente do iluminismo e da antropologia clássica. O outro acaba por conceituar cultura como “um sistema de símbolos e significados. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações e modos de comportamento. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. Para Laraia a discussão está longe do fim.
            A segunda parte descreve como “Como opera a cultura”, ou como ela molda a vida do homem. Em primeiro lugar ele afirma que a cultura condiciona a visão de mundo do homem. Uma lente através da qual o homem vê o mundo. Para o autor a cultura depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo não é determinada geneticamente. Seu aprendizado ao mesmo tempo que o dá ferramentas para interpretar a vida, também o limita a padrões pré-estabelecidos aos quais se apega como verdade e padrão, que pode ser conceituado como etnocentrismo.
            Para o autor a cultura interfere até no Plano biológico humano podendo condicionar outros aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. Apesar dessa influencia da cultura Laraia afirma ainda, que os indivíduos participam diferentemente de sua cultura. Que essa participação é sempre limitada já que nenhuma pessoa é capaz de participar de todos os elementos de sua cultura, Não existe a possibilidade de um indivíduo dominar todos os aspectos de sua cultura, mas deve existir um mínimo de participação do indivíduo na pauta de conhecimento da cultura a fim de permitir a sua articulação com os demais membros da sociedade.
            Contra o etnocentrismo o autor afirma que todo sistema cultural tem a sua própria lógica sendo desleal tentar transferir a lógica de um sistema para outro. Por fim o autor se dedica a afirmar que a cultura é dinâmica, em detrimento do pensamento do senso comum que as sociedades tendem a ser estáticas. Para ele cada sistema cultural está sempre em mudança. E se faz necessário entender esta dinâmica para atenuar o choque entre as gerações e evitar comportamentos preconceituosos e enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir.
Apreciação crítica da obra:
            A obra se destaca pelo bom apanhado histórico feito pelo autor, no que se refere ao conceito de cultura, sua vivencia com outras culturas e sua extensa pesquisa proporcionam ao leitor, uma cronologia desse conceito selecionado sob seu viés ideológico. Outro ponto alto do autor se demonstra na afirmação de que acultura condiciona a visão de mundo do homem. Importante contribuição a observação de que essa visão fornece ferramentas para interpretar a vida, também o limita sua capacidade de interação com o diferente. Seu discurso contra o etnocentrismo se destaca como uma conclusão lógica de seus argumentos abrindo portas para uma visão “Ampla” dos costumes e para a “interação” de culturas.
            Apesar de sua extensa experiência com o tema, não se pode, sob pressupostos reformados comungar com sua declarada abordagem darwinista. Para o cristão o estudo Próprio do Cristão é o próprio Deus, a ciência precisa partir da premissa da existência de Deus. Pink (2001) afirma que “mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais vigorosa filosofia, com poder de empolgar a atenção de um filho de Deus, é o nome, a natureza, a pessoa, os feitos e a existência do grande Deus, a quem Chama de Pai. O conhecimento para o cristão deve o encaminhar para o Criador.
            O Darwinismo é inconcebível como pressuposto para uma abordagem da cultura, posto que, como afirma Sproul (2002) Se “o ser humano não surgiu pela inteligência e ação divinas, mas por forças impessoais da natureza, a questão da dignidade humana torna-se premente. Ela está ligada inseparavelmente ao passado e ao futuro do homem, com sua origem e destino”. A conclusão encontrada por Sproul é a de que:
“Se nossa origem e destino são sem sentido, como pode nossa vida ter algum sentido? Atribuir dignidade a tal acidente cósmico, que, na melhor das hipóteses, é animalesco, significa sucumbir a formas sentimentais de projeção de desejos e de ingenuidade filosófica”. (SPROUL, 2002).
            Essa ingenuidade filosófica torna-se uma barreira na construção de um saber que conduz ao Pai. Preferível são as abordagens pressuposicionalistas que nos aproximam do que é produzido pela ciência, mas com uma seta apontada para o Criador. Burns (et. al, 1990) conceitua cultura como: Conjunto de comportamentos e idéias característicos de um povo, que se transmite de uma geração a outra e que resulta da socialização e aculturação verificadas no decorrer de sua história. Já para o Antropólogo cristão Mansoo Mok (2005) A “Cultura é a acumulação total de crenças, normas, atividades, instituições, e padrões de comunicação de um grupo identificável”.
            Esse conhecimento técnico filosófico aponta para o criador pois pressupõe que a  cultura é a realização do molde intencional da natureza na execução da vontade criativa de Deus. Que o home no estado de retidão possuía impulso (vontade), o chamado (dever), o privilégio (possibilidade) e também poder (habilidade) para executar o mandado criativo de Deus, mas que pelo pecado, ele perdeu essa motivação e, em conseqüência disso, o objetivo de sua cultura é pervertido. (VAN TIL, 2010).
            O homem continua responsável por essa comissão de cultivar, mas se encontra alienado dela. Os relacionamentos afetados promovem desordem e desequilíbrio nas estruturas básicas: casais, família e nas relações hierárquicas do trabalho. Tudo se dá por conseqüência do mal promovido pelo pecado. O que se contrapõe a formação cultural corrompida dos homens é a atuação de Deus na história que em Cristo, reconcilia todas as coisas com Ele mesmo (Cl 1.14), inclusive a cultura. Cristo é o Grande renovador da vida; ele restaura a religião verdadeira. Para T. S. Eliot a cultura é a “religião vivida” (VAN TIL, 2010). Biéler (2012) afirma ainda que a obra de Cristo restaura todo o universo, toda a criação é chamada para participar da grande obra de restauração começada pelo filho, bem como o homem recupera, ainda que parcialmente, sua soberania sobre a natureza.
            A cultura é objeto de grande valor no estudo teológico e precisa caminhar com os avanços científicos que estejam em conformidade com a Revelação do próprio Deus. Precisa apontar para ela. Nesse ponto a obra do professor Laraia está muito distante. Seus pressupostos evolucionistas e sua defesa da ciência tem a cultura e o conhecimento como um fim em si mesmo. A leitura de sua obra precisa ser mediada por outras leituras e por uma orientação experiente em selecionar a catequese darwinista da verdade de Deus exposta na obra. A leitura se aplica, então, para um público com boa base na palavra de Deus para uma preparação apologética ou para conhecimento da visão Darwiniana da cultura.
Referencias Bibliográficas:

 

BIÉLER, André. O pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

BURNS, Bárbara. AZEVEDO, Décio de. CARMINATI, Paulo Barbero F. de. Costumes e Culturas Sociedade religiosa. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990.
MOK, Mansoo. Antropologia Cultural numa perspectiva missionária. Contagem: AME Menor, 2005
PINK A. W. Os atributos de Deus. São Paulo: Publicações Evangélicas selecionadas, 2001.
SPROUL, C. R. Filosofia para iniciantes São Paulo: Vida Nova, 2002.
VAN TIL, Henry R.O conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

ZAHAR, Site. Autores - Roque de Barros Laraia.


Disponível em: <http://www.zahar.com.br/autor/roque-de-barros-laraia>. Acesso em: 25/08/16.